#10ART Mesa História da Arte (13 de agosto de 2011)

Priscila Arantes (PUC-SP)

Reescrituras da arte contemporânea: historia, memória, arquivo e mídia

Morte é um assunto recorrente na história do seculo XX em diante. Essa mortalidade da própria noção de história está vinculada ao fortalecimento do capitalismo neo-liberal. Lyotard afirma a finalização de grandes narrativas que se apresentam sequencialmente na historia da humanidade. Belting escreve um livro sobre o fim da historia da arte e indica que esta morte não aconteceu, o que acontece no contexto pós modernista é que alterou a escritura da historia da arte se tornou incompatível com a produção contemporânea. A narrativa da historia da arte não mais pode ser caracterizada por essa linearidade, e essa sequência de gêneros deve ser repensada. Rosalind Kraus também discursa sobre isso definindo uma condição pós-midiática, em que a noção da mídia pura de Greenberg e esta divisão da produção artística entre midias tambem devem ser repensada. Aí Priscila invoca Benjamin que diz que nesse mar de ruínas talvez fosse interesante resgatar os cacos da historia, para podermos reconstruir nossa visão. As descontinuidades são momentos críticos em que mudanças podem ocorrer. Noção de montagem como método deve ser levada em consideração para esta reflexão sobre a escritura histórica. Assim como o montador, o artista edita e recorta; e o historiador deve reescrever a história. A montagem cinematografica já incorpora o arquivo e o banco de dados e um possível hipertexto, em uma narrativa que se aproxima do banco de dados.
Na arte interativa, o público também é um montador produz a sua propria narrativa, define temporalidades. Posto isso: o nosso contato com a mídia, seja no passado ou presente se dá através de imagens. O nosso cotidiano se dá através de uma realidade visual midiática. Como os artistas vem potencializando esta discussão. Repetir esta realidade de forma diferente. Neste contexto, Priscila define 3 visões sobre a historiografia do contemporâneo:
  • Reencenação:  baseada no remake cinematográfico, busca uma possibilidade de reconciliação com o passado, uma releitura numa tentativa de  re-experienciá-lo.
  • Arquivar: Que problematiza a questão do arquivo. Esta questão invadiu a contemporaneidade através de sites e blogs que reúnem e compartilham arquivos pessoais, mas ao mesmo tempo contém uma efemeridade. Ressaltando fatos relevantes que muitas vezes escapam da percepção.
  • Espacialização da narrativa: A presença de diversos planos que se exibem simultaneamente, ou a prática de se levar para o espaço público algo que é restrito a um grupo privado.

Emerson Dionísio (UnB)

Sobre as obras que não temos acesso a documentação

Arte contemporânea se apresenta como um desafio para historiadores da arte, em especial suas manifestações efêmeras cujo não temos acesso a imagens. É muito conhecido o ato performático realizado por Flavio de Carvalho, experiencia 3, em que o artista chocou pela sua irreverência ao andar vestindo uma blusa de mangas curtas, saia acima dos joelhos, meias arrastão, sandálias de couro e chapéu de náilon pelas ruas de São Paulo em 1956. Esta experiência conta com registro fotográfico. Sua experiencia 2 em que Flavio andou no sentido contrario a um cortejo, provocando a revolta dos religiosos carece de registros e documentação. Na performance de Artur Barrio ‘4 dias 4 noites’ e o artista caminhou ininterruptamente até o esgotamento. Nada ficou como registro além da memória do artista. A questão do registro de obras efêmeras tem sido uma questão. No caso de Flavio o caráter artístico foi dado posteriormente. O problema é quando o artista ativamente rejeita o registro, quebrando com uma ferramenta mantedora da arte, a história. Fotografias se tornam elementos importantes do registro, alguns desses registros superam o aspecto documental para se tornar a própria poética da arte. Embora muitos artistas neguem isso. Esses registros se tornam objetos de apreciação estética. A imagem da arte e a arte que vende a si mesma. Qual a diferença entre o ato da performance em si e esse registro? Há um processo em que os limites entre o registro poético e documental são dissolvidos. Os artistas começam a se posicionar dentro dos universos imagéticos de forma provocativa, narrativas exteriores a obra. Funcionam como elementos essenciais a obra só que em realidades virtuais.  A historia não se mantém quando o universo imagético não é suficiente. O hitoriador se torna refém de outra ordem o relato seja falado ou escrito, o que leva historiadores da arte a cairem em ciladas conceituais, como referencias bibliográficas. Ancorando o relato ao processo bibliográfico. O caso do artista é uma exceção, pois apesar de ter se recusado ao registro daquela performance, muda de postura posteriormente adquirindo o hábito de documentação, a partir de fotos e textos dando acesso a uma trajetória de produção artística que permite obter uma noção do que foi. O grande problema da história da arte o posteriori, são os múltiplos remanejamentos. O sistema posteriori necessita acrescentar inteligibilidade ao passado, recusando obras de genealogia duvidosa, como as que tem sua documentação defasada. O relato apenas verbal, seja falado ou escrito coloca a prática do historiador em questão.  Barrio permanece uma situação isolada pois se trata de artista renomado. Como discutir uma obra de um artista que avisa por meio de redes sociais sobre uma performance a acontecer, e que se recusa a documentar e discutir o assunto? A resposta é simples: Se não há registro da arte ou qualquer relato do artista, a obra inexiste, acho que o problema está resolvido.
Anúncios

#10ART Mesas Arte & Corpo; Dramaturgias; e Sentindo&Pensando

As mesas de arte e corpo e de dramaturgia muito me interessam pela minha aproximação com o teatro e a dança, particularmente o movimento corporal é o que gera todo meu projeto de mestrado. Por isso, vou tentar reunir aqui alguns conceitos discutidos nas duas mesas. Especificamente nas falas de Soraia Silva, Hugo Rodas, Cinthia Nepomuceno e Luciana Lara. Bom, como me atrasei no post vou aproveitar para unir com a Mesa Sentindo & Pensando do dia 12 de agosto, coordenada pela dançarina Ana Livia Cordeiro, que também teve presença de Ellen Slegers e Valeria Bahia.

Vou iniciar com a fala de Soraia Silva:
Ao lado da consciência existe a vida (BERGSON). A origem da dança é o fluxo da vida. A força química, física e mecânica se unem em um gesto natural. A modernidade busca a tensão do movimento, diferente do Ballet que muitas vezes busca a forma final do movimento, ou seja a pose. Existe uma troca entre o espírito e matéria no devir do movimento. Criação em dança é experimental por excelência, onde não existe fronteiras rígidas entre dentro e fora.
Luciana Lara vai discursar sobre a experiência corporal em termos de memória e técnica. O corpo está moldado pelos nossos hábitos cotidianos, em como tomamos banho, como fazemos sexo, como agachamos. No universo da dança contemporânea os dançarinos costumam ter contato com uma técnica como Cunningham, Graham etc. Este contato se revela em uma série de valores estéticos não só em repertório corporal, mas também em termos para nominá-las, que são restritores de uma forma de compreensão e expressão corporal. Em estados mais altos de consciência, caracterizados como êxtase ou transe, se refletem simultaneamente os estados biológico, físico, emocional, psicológico. Existem portanto uma série de camadas que preenchem o sentido do movimento, e essas características se expressam em diferentes personalidades. Portanto, Luciana defende que a dança deve ser vista como uma improvisação dirigida e não como uma série de passos.
Dentro desta categorização de movimentos me chamou a atenção os conceitos de Gabrielle Roth que Cinthia Nepomuceno apresentou. Roth caracteriza o movimento em 5 categorias. Fluente, estacato, fragmentado, lírico e calma. Estas categorias não limitam a forma do movimento mas são mais uma descrição da relação com o espaço e o tempo. Se são contínuos, quebrados, repetitivos, etc. Outra questão abordada por pessoas da plateia foi descrições do movimento que se limitam a partes do corpo, por exemplo descrevendo passos dos pés e se esquecendo do tronco e das mãos.
Hoje em dia podemos descrever tudo como algoritmos, inclusive movimentos corporais. O percurso dos números foi exposto da vida de Hugo Rodas de forma muito carismática que resultou na sua experiência em dança que parte exclusivamente dos números. A questão da métrica e do ritmo cria uma aproximação muito forte entre a dança e a música com a matemática. Normalmente a matemática é associada a precisão das ciências exatas. Luiz Velho, meu co-orientador, pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada me diz sempre que matemática é abstração são idéias e isso pode nos dar uma visão menos “medrosa” da matemática e das ciências exatas.
Ana Livia Cordeiro começou sua fala indagando sobre o que aconteceria se nos explicassem quimicamente os nossos sentimentos, por exemplo a sensação de estar apaixonado. A emoção não se dá através de pensamento, os nossas sensações e sentimentos estão enraizadas no nosso corpo, em nossa carne. E por mais que tentemos descrevê-las nenhuma explicação compreende ou substitui o sentimento em si, a experiência, a vivência. Toda arte trabalha esse drama inerente as nossas vidas. Esse drama que é condensação e concentração da ação. Para a dançarina, o que nos motiva hoje na arte é uma leitura da natureza em contraponto com o que nós sentimos. Na minha visão é uma tensão entre o interno e o externo, o que precisamos botar para fora, o que nos é externo que se transforma internamente e é preciso expulsar novamente em novas formas. Quanto mais nos conhecemos, mais profundo é o nosso mistério.  Esta relação foi explorada em um de seus ultimos projetos, em que o seu batimento cardíaco influencia cromaticamente na imagem capturada pela câmera. O projeto pode ser experimentado inclusive na internet, no site www.analivia.com.br/voce

Ellen Slegers vai falar sobre esta relação do corpo com a necessidade expressiva afirmando que o artista trabalha para atingir o nível de utopia em seu nível de emocionalidade. O corpo gera suas emoções. Um ponto que ela mencionou que achei muito interessante foi sobre o medo da proximidade, se referindo uma performance de Valie Export, na qual ela cortava a parte de sua calça jeans que cobria sua genitália e entrava em um cinema pornô oferecendo aos espectadores uma ‘verdadeira genitália’ e ia passando pelas fileiras apontando um revólver para as pessoas da plateia. Aos poucos as pessoas foram se levantando e se retirando do local. Este medo de proximidade que se reflete tanto na própria artista que carregava um revolver, quanto nas pessoas que se retiravam pode se refletido dentro do que Malu Fragoso discutiu sobre o pós-biológico na arte. Será que este medo de proximidade existe em um mundo que a vida está impregnada de relações virtuais e que muitas vezes isso acarreta em uma superficialidade? Seria esta uma própria noção de morte que buscava no contexto tecnológico contemporâneo, sendo as duas faces da moeda? Para encerrar Ellen perguntou a plateia se nós acreditávamos que a tecnologia poderia nos suprir dessa necessidade de utopia da arte. Responderam: A mídia é sempre uma busca da melhor forma para expressar seus questionamentos sobre o que não é visível. Tudo é uma questão de até onde ela quer ir, usar a tecnologia não para compreender este invisível, mas para expressar sua imaginação deste. Os meios não tem consciência de si, nós que damos esta consciência. O artista utópico carrega a utopia consigo, e pode transmiti-la pelos meios tecnológicos, mas estes em si não são utópicos.

Eu acredito que sim, a tecnologia pode representar a utopia artística. Mas não devemos esquecer da noção do nosso próprio corpo que é orgânico, mecânico, material. A tecnologia assim como qualquer outra forma de arte só nos ajuda a ter novas percepções deste corpo. Esta minha visão é influenciada pelo conceito de Hans Belting de corpo como mídia viva, que defende não somente a independência do corpo uma mídia em constante mutação(física, mental, imagética), mas também o papel da subjetividade humana nessa mediação em uma arte midiática. O autor diz que o corpo humano permanece o mesmo desde sempre, mas que a arte e as diferentes mídias apenas contribuem para novas percepções deste corpo.

Esta atenção para não nos cegarmos pela tecnologia ficou bem exemplificada na fala de Valéria Bahia. Ana Livia a convidou para integrar a mesa por ser endocrinologista e poder contribuir com a discussão sob outro ponto de vista. Ela acredita que se as pessoas descobrissem o que acontece quimicamente, haveria algum nível de desencanto neste sentimento, que a noção de drama abordada por Ana Livia seria abalada. Ela reforça que o mau uso da tecnologia nos prejudica e exemplifica com o fato de pessoas muitas vezes não se conformarem de ter um problema emocional e necessitarem de uma ajuda médica,  se conformando com um desequilíbrio químico. Isso acaba com a predisposição ao sentimento. Ela exemplifica também com uma experiência pessoal, em que caminhava em um lugar envolta em seus pensamento e de repente sentir um forte cheiro de desinfetante. Parou e foi buscar a fonte do cheiro visto que estava em um lugar improvável para sentir este cheiro, quando olhou em volta viu que estava cercada de árvores de eucalipto. Ou seja, a presença da tecnologia é inevitável em nossas vidas, e ela realmente modifica nossa percepção. Devemos ficar atentos a um bom uso desta tecnologia. Na arte, a neuroestética cada vez mais presente não deve ser utilizada para compreender esta sensação, mas para explorar novas percepções, porque como Ana Livia disse a emoção não se dá através de pensamento, os nossas sensações e sentimentos estão enraizadas no nosso corpo, em nossa carne. E é para este sentimento que devemos estar atentos. Não sei o que aconteceria se nos explicássemos quimicamente, mas acredito que a sensação de desilusão seria momentanea, e após algum tempo já estaríamos envolvidos novamente em nossos sentimentos, que são involuntários. Gostaria de fechar esta discussão em um verso de Marisa Monte que aborda esta tensão maravilhosamente:

“Meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você”

(Marisa Monte, Eu sei (na mira)

Quer saber mais? Aqui vão os links dos textos:

#10ART – Dia 2 – Pós-biológico na arte

Assim como na mesa de neuroestética eu vou tentar unir a fala dos 4 participantes. São eles: Maria Luiza Fragoso, Cleomar Rocha, Guto Nóbrega e Gilbertto Prado.

A mesa começou com a fala de Maria Luiza Fragoso discursando sobre as máquinas inteligentes que tem essa capacidade de interagir e sobre a nossa inevitável convivência com elas. Elas necessitam somente de uma fonte de energia para viver mas ao mesmo tempo podem se tornar subitamente mortas a um simples toque. Parecem ter vida. Nós respondemos e reagimos a ela o que nos dá a sensação de comunicação. O que nos interessa é a comunicação, logo nos desinteressamos pelo que nos parece inanimado, pelo que não conseguimos nos comunicar. Na própria vida natural, por assim dizer, já existes muitos seres que não conseguimos nos comunicar, como plantas, insetos, e nesta falta de comunicação muitas vezes nos esquecemos que são seres vivos. Essa falta de comunicação nos distancia, nos afasta da vida orgânica. Nos sentimos cada vez mais vivos ao se conectar na rede, ao ingressar em redes sociais e nos “comunicar” constantemente com o maior número de amigos possíveis. O que é estar vivo e morto no contexto tecnológico contemporâneo? Será possível experimentar a morte da mesma forma que temos a sensação de vida? A artificialização das relações parece desvalorizar o valor tênue e efêmero da nossa vida, e que a nossa vida é orgânica. O que seria então o pós-biológico e pós-humano? A fala de Cleomar Rocha vai começar então defendendo a ideia de que a arte é por si só pós-biológica. No sentido que é resultado de uma cadeia produtiva que utiliza sistemas, artefatos, mecanismos, materiais a partir de intervenção humana. Quando dizemos ‘pós’ é com uma perspectiva de ampliação e não de substituição. O ciberespaço pode ser visto de diversas formas. A primeira a do paralelismo em que consistiria então em uma realidade paralela, em que você atua através de um avatar. A segunda seria de um atravessamento, quando acessamos algo remotamente. E a terceira uma visão atomizada em que podemos nos plugar e conectar a qualquer hora de qualquer lugar, uma visão próxima da cultura contemporânea. O Pós-biológico se aproxima da visão de atravessamento em que nos conectamos através de um dispositivo para acionar o sistema. Podemos então discutir os exemplos das obras de Guto Nóbrega e Gilbertto Prado a partir das falas de Malu Fragoso e Cleomar Rocha. Guto Nóbrega se interessa pelos seres híbridos, uma forma de mesclagem e intervenção de seres orgânicos com máquinas, foi criada Breathing “feita da comunicação entre um organismo vivo e um sistema artificial.

Breathing from Guto Nobrega on Vimeo.

A criatura responde ao seu ambiente através de movimentos, luzes e ruídos. O ato de respirar é a melhor maneira de interagir com a criatura. Este trabalho é o resultado de uma investigação sobre plantas como agentes sensíveis na criação de arte. A intenção desta obra é explorar novas formas de experiência artística através do diálogo entre processos naturais e artificiais. Breathing é um pré-requisito à vida e é o caminho que interliga o observador à criatura. Breathing é um trabalho de arte movido por um impulso biológico. Sua beleza não é revelada na planta ou na estrutura robótica. Essa emerge no exato momento em que o observador e criatura trocam suas energia através do sistema. É durante esse momento lúdico, no qual nos encontramos num estranho diálogo com a criatura, que a metáfora da vida é criada” Breathing é como uma tentativa de comunicação com esses seres inanimados citados por FRAGOSO.

Guto afirma que este momento de interatividade se torna então uma relação interafetividade. Afeto aí pode ser considerado de duas formas, uma relação mutua de ação e reação ou de um sentimento “caridoso”, “amoroso”, se é que me entendem. Gilbertto Prado apresentou os projetos que vem desenvolvendo com o Grupo Poéticas Digitais na USP. Três projetos foram apresentados o Desluz resultado de uma indagação de porque os insetos ficavam rondando as luzes urbanas. Isto o fez pesquisar sobre o aspecto da luz. Os insetos são sensíveis ao o infravermelho que podemos sentir mas não podemos ver. O resultado foi uma instalação constituida de um tubo de LED que aparentemente está apagado e não interage. Quem passa pela instalação desapercebido pode pensar que não funciona, porém ao vê-la através do celular, as luzes estão acesas. A instalação é sobre o que sentimos porém não compreendemos.

Esta instalação se inspira em seres citados na fala de Fragoso, é interessante perceber que apesar de nos impormos entre outras espécies pequenos seres possuem a sensibilidade para coisas que nós não percebemos. A segunda obra de Gilbertto Prado foi a instalação Amoreiras que foi instalada no ItauCultural. Foi criado um sistema que captava o som da rua e do chão que acionava motores que chacoalhavam as amoreiras. Cada árvore era sensível a uma frequencia sonora. Além disso, o sistema incluia o princípio de vizinhança em que uma arvore parada aprendia com sua vizinha e começava lentamente a se mexer também. Esta experiência foi também exemplo da interafetividade citada por Nóbrega.

As amoreiras foram capazes de interromper o ritmo infreável de paulistas que passavam na rua, que prestavam atenção nos seres híbridos, orgânicos inanimados em movimento. O último experimento foi apresentado aqui no #10ART chamado Catavento que é um diálogo entre céus e nuvens. Foi projetado no Museu da Repubica uma animação sensível a direção e intensidade do vento. Nela a palavra Céu se apresenta e desloca de acordo com o sentido do vento e as partículas que se desfazem de acordo com sua intensidade. Uma arte que interage não com os humanos, mas com a natureza. Uma obra que nos faz ter que relembrar e esperar o tempo da natureza.

Ao final da mesa Lucia Santaella pontuou algo muito interessante: no século XX o homem fez uma descoberta muito importante: a vida é código(se referindo ao código genético). Antes disso atribuiamos a invenção de códigos ao homem. Sendo assim, até onde vai a vida?

#10ART – Dia 2 – Ana Beatriz Barroso

Um pouco da palestra de Ana que me tocou pela beleza das palavras

A arte sempre foi vista como uma ilusão, um mundo sensível, mundo imaginário completo, como uma outra realidade. Durante muito tempo sua função foi entreter, representar e iludir. Por um lado, a indústria cultural se apropriou disto e por outro novas funções foram sendo revelados. A arte passou a ser uma postura, um modo de olhar. O que ela defende é que a arte representa uma forma de conhecimento resultante de sensibilidade e emoção. De início a linguagem não é. Não é nada. É uma forma, uma relação. As palavras mudam de sentido de acordo com a organização delas. Portanto, a linguagem é um relacionamento, é relativa. Não é um meio de comunicação, um meio seria a escrita. A linguagem tão pouco é exclusividade humana. O que e estranho é a complexidade que adquiriu e nos permitiu nos impor entre outros animais. Dizer que existe uma linguagem da arte, seja visual, musical, plástica, é poder dizer que pensamos música, imagem e que a arte é uma forma de pensamento independente da linguagem verbal. O corpo sensível pensa de todas as formas simultaneamente, não sistematicamente e é isso que torna cada momento ímpar. O misterioso não é a arte, mas a vida! Conhecer é relacionar habitar a linguagem ao mesmo tempo que nos sentimos abandonados por ela.

Seu texto já está disponível aqui!

#10ART – Dia 2 – Lucia Santaella

Antes de iniciar, Lucia parabenizou Suzete Venturelli pela organização do evento que já atinge sua décima edição, sua perseverança deve servir de exemplo para que se construam projetos contínuos de discussão e exposição (necessidade também indicada pelo Oliver Grau na palestra de ontem). Estou tentando fazer a minha parte com a minha visão do evento aqui no blog.

A relevância da arte-ciência na contemporaneidade

Santaella inicia sua fala discursando sobre a aceleração na produção de linguagens que forma o fluxo contínuo de informação, a pulverização do tempo como duração. Estes processos resultam da era da reprodutibilidade técnica(Benjamin) após a Revolução industrial que expande as áreas de conhecimento induzindo a um constante repensar da noção de arte, que se repete a cada nova remediação.
Este fluxo contínuo é amplificado após o urinol de Duchamp. Para Santaella, a obra de Duchamp equivale a uma carta de auforria dos artistas que inicia um processo de liberdade de produção artística. Ser artista se torna um ato de fé e cabe a cada um encontrar o seu nicho e ser fiel a sua obstinação pessoal, o desejo de ser artista.
A aproximação entre arte e ciência cresce desde o Renascimento com Da Vinci se revelando em diversas variedades de relação entre artistas e cientistas. Porém, para Santaella esta relação é desequilibrada, pois a forma que os artistas tratam a ciência é completamente diferente da forma como os cientistas tratam a arte. A ciência é fonte inestimável para arte. A relação entre arte e ciência se dá através da mediação tecnológica. Os artistas mais inquietos sempre tarabalham com tecnologia inovadora. Se no século XIX era a tinta óleo hoje são os meios digitais. esta pesquisa tem implicações práticas e filosóficas pois não se faz uso de pesquisas científicas mas experimenta e participa simultaneamente com a pesquisa, se revelando em campos como a biologia, ciências físicas, matemática e algoritmos, cinética, telecomunicações, e sistemas digitais.
O desequilíbrio na relação arte-ciência diagnosticado pela autora é resultado da distinção das duas áreas como forma de conhecimento. A ciência cabe a função de decifrar a natureza, um aprimoramento de métodos de observação, modo de pesquisa controlado e padronizado que evita ambiguidades. Já a arte não tem compromisso com o real, alimenta-se do impreciso,simprovável e imprevisto. Apesar das diferenças pode-se traçar paralelismos e afinidades e a grande semelhança entre ciência e arte seria a caracterização da manifestação do espírito inventivo humano, sua maior distinção.
 
Texto completo aqui!

#10ART – Dia 1 (10 de agosto de 2011)

Começou hoje a #10.ART Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Arte da UnB. Nos próximos dias estarei postando aqui pequenos resumos das palestras que considerei mais interessantes. Não tenho pretensão de fazer uma cobertura completa, até porque são quase 10h diárias de evento durante 1 semana inteira. A programação completa do evento pode ser encontrada aqui!

Oliver grau

texto completo aqui

Teórico alemão fez uma palestra sobre a importância de novas estratégias de documentação de arte e mídia. A arte e mídia tem diversas dificuldades a enfrentar. A própria efemeridades das formas de armazenamento já é um obstáculo natural para a manutenção das formas originais de exibição. O fato de serem processuais, no sentido que exigem especificações para serem montadas nos diferentes lugares exige uma flexibilidade na execução para os diferentes locais de exibição, que muitas vezes necessitam de adaptação. Apesar de já existirem vários festivais e congressos bem frequentados ainda não existe uma iniciativa de aquisição e manutenção por parte dos museus, é uma competição desleal com a arte tradicional.
Em 2005, foi realizada a primeira conferência da série MediaArtHistories, iniciativa que teve fundamental importância para este campo emergente que é a ‘História da Arte e Mídia’ e que possui documentação em publicação de livros e online. Outra iniciativa importante são portais online para criação de acervos de arte e mídia. O Database of Virtual Art é um deles que está ativo, Grau ressalta a dificuldade de se manter tais tipos de site e afirma que diversas iniciativas foram interrompidas ou por falta de investimento ou por falta de pesquisadores responsáveis, causando desaparecimento e perda não só de documentação mas muitas vezes da própria obra. Outros sites citados que ainda permanecem online são o Rhizome e o MediaKunstNet.

É necessário uma comunidade seja pró-ativa e dedicação a longo prazo para que se amplie as formas de documentação formal que devem incluir registros fotográficos, vídeos, códigos, artigos etc. para que se crie uma estratégia sustentável. Além disso, o alemão ainda ressalta a importância não somente das conferências, festivais e da produção teórico-prática mas da formulação de um currículo para os novos professores. Acho que a palestra demostrou a urgência em se definir novas estratégias que são necessárias e fundamentais para a Arte e Tecnologia como campo artístico teórico-prático.

Anna Barros

texto completo aqui

Anna iniciou sua carreira artística na dança de improvisação de Rudolf Laban, no domínio do movimento humano e de improvisação. Hoje, apresentou seu trabalho “Tecendo o Tempo ou Sendo Tecida pelo Espaço” que consiste em uma instalação que possui dois planos. O chão coberto por um tapete, em que as pessoas devem deitar e rolar, ativando duas projeções sobre elas e a parede, que possui outra projeção. Anna desenvolve pesquisa com a percepção como integração sensorial, em que os sentidos de sobrepõem e não são exclusivos. Discursa ainda sobre a categorização dos sentidos que normalmente são separados entre primários e secundários, sendo os primários a visão e a audição. Finalizou a palestra com uma bela frase de Jung: “O processo criativo o intelecto pode descrever, mas só a experiência vivida pode entender”

Weaving Time or Being Weaved by Space, Tecendo o Tempo PartII from ANNA BARROS on Vimeo.

Neuroestética

Este tema foi discutido nas palestras de Milton Sogabe, Fernando Fogliano, Cleo Alberto Semele, Suzete Venturelli e Miguel Gally, portanto vou tentar integrá-las em um só texto, fazendo um mix das palavras dos palestrantes. Só aviso que é um tema muito complexo e vou tentar explicar o que compreendi esperando não cometer nenhum equívoco.

A neuroestética pesquisa quais ondas cerebrais se ativam na experiência estética do belo, portanto uma resposta química, um correlato neural.(GALLY) Não está interessada na arte em si mas no processo cerebral do vivenciar a arte. Qual o sistema do cérebro para sentir a beleza?

Há uma diferenciação entre a teoria da neurociência e da genética. Esta última consiste em uma visão sistêmica em que o artista é influenciado pelos elementos que entra em contato. Estes elementos formam um mapa mental em que a produção artística é um resultado deste mapa que está em constate transformação e por isso nunca acaba. A arte tecnológica portanto reflete este aspecto de obra inacabada pois permite a constante atualização e criação de novas versões a partir de pequenas alterações.(SOGABE) A arte tecnológica além de ser inacabada é aberta a interferência do publico, que permite não só a interpretação de acordo com cada mapa mental mas a intervenção, reação e colaboração resultante deste mapa que pode se manifestar também fisicamente.

O desenvolvimento da neuroestética pode ter diversas implicações no rumo da estética e da arte. Caso não haja correlato neural poderia ser possível afirmar que o belo é uma questão de gosto particular e relativo. Já a confirmação de uma correspondência neural poderia instaurar um estado de universalidade, um desencantamento da experiência do belo. Se ficou atribuído a Kant na “crítica da faculdade de julgar” uma revolução do gosto, estaria a neurociência fazendo uma nova revolução? Tratar a consciência como cérebro é algo cultural, que vem desde o iluminismo com o costume de se conceituar e teorizar o máximo possível e a estética é uma conceitualização do sentimento. Um tratamento material inauguraria corrente estética dentro das ciências, não finalizaria sua área de conhecimento. (GALLY) A neurociência apesar de compreender as ondas cerebrais não generaliza a experiência. (SEMELE)

Esta vivência humana vem tentando ser simulada através dos computadores e é nesta busca que se desenvolve a neuroestética, uma tentativa de compreender essa experiência através dos processos mentais(VENTURELLI), para possivelmente simulá-los ou quem sabe até reproduzi-los.

A experiência é permitida pelo reconhecimento do self, e portanto o discernimento do outro; da memória, da intenção como foco da sensibilidade e da emoção como catalisador da sensação de experiência que a torna memorável(FOGLIANO). Na verdade, a visão biológica e cultural coexistem e o nosso ambiente biológico é influenciado pela percepção e também pela tecnologia(SOGABE). Achei interessante a pergunta que o Milton Sagobe fez ao final da palestra: seriam os sensores uma tentativa de se dar um corpo ao cérebro que a tecnologia produziu.

Textos completos aqui:

 

Gameduca

Projeto de jogo/rede social para aprendizado da história da arte. O projeto é bem interessante e propõe que alunos e professores interajam a partir de criação de exposições virtuais. Quanto maior a contribuição, mais pontos ganham e podem adquirir novos status como historiador, restaurador, curador, etc. Além disso os alunos podem se reunir em grupos de interesse chamados coletivos. Enfim, um projeto muito legal desenvolvido por alunos da UnB com previsão de disponibilização online daqui a 2 meses.