Atrás da máscara em Sleep no More

Recentemente tive a oportunidade de assistir em NY o espetáculo Sleep No More, livremente baseado em Macbeth, acontece em um hotel abandonado em que várias cenas acontecem simultaneamente em diversos cômodos.
Antes de entrar no hotel, os espectadores são recebidos em um bar em que ganham uma máscara que deve ser usada a todo momento. Também recebem uma carta que deve ditar o horário de entrada de cada espectador, de forma a encorajar uma experiência individual e a desfazer os grupos de conhecidos.

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Em minha experiência, ao entrar no prédio percorri durante um tempo (que não sei dizer ao certo quanto) diversos cômodos. Não havia cenas acontecendo ainda e podíamos (eu e os outros mascarados) explorar, investigar, bisbilhotar todo e cada cenário e objeto de cena. Vale dizer que a cenografia e produção de arte é extremamente bem feita, que se ocupa até mesmo do interior de cada gaveta. Dito isto, passeei entre enfermarias, consultórios, dormitórios, li prescrições e tudo apontava que o andar inicial que me encontrava era um hospital psiquiátrico. A sensação de explorar este ambiente beirou o frisson. Me sentia simultaneamente livre e ansiosa. Pensei no quanto estamos acostumados a não encostar em nada, desde criança, “Não mexa nas coisas dos outros” e até que ponto a intimidade das pessoas habita os objetos. Por um instante desejei não encontrar qualquer pessoa de face exposta (os atores) e aí me ocorreu a invisibilidade postiça da máscara. A opção pela imposição da máscara aos espectadores se dá pela manutenção do anonimato, o que incorre em uma diminuição da inibição.

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A máscara auxilia também na proximidade dos espectadores e encenadores. Os espectadores muitas vezes devem perseguir os atores enquanto percorrem os corredores e escadas no deslocamento entre cenários. A peça também possui cenas altamente violentas e/ou sexuais e no entanto, todos assistem aos corpos de uma distância muito próxima. É curioso pensar que uma cena quase tribal com 3 ou 4 atores nus dançando, com “sangue” escorrendo por seus rostos e genitálias ocorre em meio a algumas dezenas de pessoas rodeando o acontecimento. Algumas poderiam tocá-los se estendessem seus braços, no entanto, a fronteira “4a. parede” se mantém mesmo em um ambiente cênico livre de cadeiras, que apesar de permitir uma distância muito menor do que o usual, ainda é respeitado.
A peça se revelou mais um espetáculo de dança, de sensações, do que propriamente uma narrativa. Ainda sim, me permanece a sensação do silêncio por de trás da máscara e da movimentação sorrateira entre os objetos de outrém.

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2 respostas em “Atrás da máscara em Sleep no More

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