Lenine e as Poéticas Interdisciplinares

Antes de começar uma pequena observação:
Hoje eu vou ter que falar sobre algo que inicialmente poderia fugir do conteúdo normal deste blog mas que é de meu extremo interesse e portanto influente na minha vida pessoal, na minha criação artística e minha pesquisa de mestrado.

Hoje vou falar de Lenine, músico e compositor brasileiro, a quem tive a maravilhosa oportunidade de ouvir durante mais de 2 horas ontem(05/07/2011) em um evento chamado Encontros da Musica Brasileira, organizado por Charles Gavin no Polo de Pensamento Contemporâneo, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, que convida músicos para um bate-papo informal.

Charles Gavin também é músico, ex-integrante da banda Titãs, e faz um projeto de pesquisa, quase que jornalístico sobre a MPB. Também apresenta o programa “O som do vinil” do Canal Brasil.

Achei interessante, porque estou fazendo o mestrado lá na EBA/UFRJ e em vários momentos da noite pude fazer uma ponte com o que discutimos lá na linha de pesquisa. O que mais me instigou foi uma visão do processo criativo dele inserida no contexto da nossa linha: ‘Poéticas Interdisciplinares’.

Para organizar o evento, Charles Gavin, no papel de entrevistador, realiza uma pesquisa sobre o artista e notou em sua pesquisa sobre o Lenine que o artista não tinha muitos videoclipes na sua produção, e achou isso muito curioso porque os videoclipes foram muito importantes na inserção da industria musical nos anos 90. Lenine disse que não se sentia muito a vontade para gravar videoclipes, achava aquilo tudo muito fake, ficar fingindo diante da câmera que estava fazendo musica.

Mas o que foi importante para mim neste tema é que introduziu na conversa a relação da imagem com a música, algo que segundo o próprio é essencial em sua criação artística. Isso foi o que mais me instigou.

“As minhas músicas partem sempre de algo que eu vi. Não me lembro de ter feito alguma canção sem ser imbuído de uma imagem.” Lenine

Em vários casos, aconteceu de ele ter uma imagem que cativava tanto ele, de ele parar e pensar: “Preciso fazer um disco disso aí” e aí ele começa a relatar o processo criativo dele em que normalmente ele parte de uma imagem, como no caso do Olho de Peixe que é um furacão em Jupíter que o diâmetro é 7 vezes o da Terra. A partir da imagem ele começa a criar um banco de ruídos que vão compor a sonoridade do álbum.

Isso me emocionou muito porque essa relação entre a imagem e a música é algo que me motiva desde o início da faculdade e está presente também no meu projeto de mestrado, agora tendo o movimento corporal como ponto de partida. Foi quase uma ironia do destino, porque justo eu que acompanho a trajetória do Lenine e tenho particular interesse nessa relação (inicialmente pesquisando capas de disco, e hoje em dia uma expressão artística integrada na performance), não conhecia esta faceta.

Este processo criativo me interessa muito porque representa um estado da arte em que o pós-modenismo não se limita somente a uma ruptura com a narrativa linear entre as diversas mídias, enquanto produto final artístico; mas que essa rotulação, essa segmentação das diversas produções artísticas não ocorre nem durante o processo criativo. (OK, eu acho que essa interdisciplinaridade devia ocorrer muito antes do que chamamos de pós-modernismo se instaurar, mas não deixa de se inserir e se potencializar numa postura artística atual)

//Essa questão de rotulação me irrita muito porque eu mesma não consigo me inscrever em nenhuma divisão artística. (não) sou designer, não sou atriz, não sou dançarina, não sou cantora, não sou artista plástica, sou artista ponto. Se você quiser me chamar pra fazer qualquer uma dessas coisas, eu vou fazer, vou gostar, vou me expressar, mas o que eu gosto mesmo é o que está ENTRE, é a integração.

Ele ressaltou essa dificuldade dele se inserir nas rádios nacionais por conta desse caráter híbrido de sua música. As rádios de MPB diziam “AH! Esta música é muito Rock”, e as de Rock diziam “Pô, mas isso aí é MPB”, e no final das contas não importa. O que importa é que é bom, e que é uma música genuinamente brasileira.

Uma coisa que me chamou muita atenção, foi justamente esta identificação com tantos pontos do que ele falou, e essa identificação que já ocorria com as músicas dele. Na verdade, a apreciação, a admiração artística é muito intuitiva, e não se tem que justificar porque gostou ou porque é bom (birra com arte conceitual, que você pode gostar intuitivamente também), mas você gosta e pronto! Quando eu tive a oportunidade de ouvir tão de perto (perto mesmo hehe) todo o processo que o levava a produzir o que eu adoro e, além disso, este processo ter tanto a ver com o que me interessa enquanto processo de criação, fico sem palavras… Realmente emocionada. É uma admiração muito profunda mesmo.

Diversas vezes durante a noite Lenine contava sobre algum projeto em que estava envolvido, e que não tinha quem bancasse. Mas ele seguia seu instinto, resolvia fazer a qualquer custo. Essa coragem demonstra muito compromisso com o que acredito ser o seu diferencial. Ele chegou a afirmar, se referindo a sua performance no palco, que criou um público que espera esse nível de entrega, essa paixão que transparece claramente em seus shows. Acredito que essa autenticidade é responsável por ter conseguido o sucesso, apesar de todo o árduo percurso, e conseguir formar um público interessado que se doa à experiência artística tanto quanto ele (e a banda) nos shows.

//Mais uma vez, é esse nível de entrega tanto do ‘artista’ quanto do ‘público’ que procuro explorar em meu projeto: uma experiência de simbiose artística .

Voltando a questão da imagem. Achei interessante que o último disco dele o processo criativo foi diferente (pra quem tiver maior interesse, recomendo o documentário ‘Continuação’), mas mesmo não tendo partido da imagem acredito que a capa reflita bem a sonoridade do disco, que tem algumas faixas bem mais “pesadas” do que os seus trabalhos anteriores (apesar da música magra leve e calma).
Pra finalizar vou botar aqui a música “Martelo Bigorna” e a capa deste último álbum ‘Labiata’ para verem o que acham.

Espero não ter me demorado demais, mas como ele mesmo disse, as vezes nós temos essa necessidade de compartilhar as coisas, e precisamos falar pra alguém. Bom, fica aí o registro de uma noite com um dos artistas mais legítimos do Brasil. 😉

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